março 07, 2006

ELOGIO AO AMOR
"Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade.
Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje
as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são
colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque
faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa
das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem
contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha
entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes
tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor
transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que
devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática.
O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade,ficam
"praticamente" apaixonadas. Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do
amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de
conversas,farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi
namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. incapazes
de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia,são uma raça de
telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem,tudo bem", tomadores de
bicas, alcançadores de compromissos, bananóides,borra-botas, matadores do romance,
romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem
fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um
cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma
coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio,
o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o
pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".
Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para
onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços,
flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade.
Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender,
não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto
faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de
repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é
uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A"vidinha" é uma convivência
assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um
destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o
clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se
sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do
que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por
isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e
minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode
matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar,
o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil,
por muito desesperadamente. O coração guarda que se nos escapa das mãos. E durante o
dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha -
é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não
se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar
magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode
ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida
inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la
também."
Miguel Esteves Cardoso in Expresso

4 Comments:

Blogger Hannanur said...

Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

9:06 da tarde  
Blogger a mota do pai said...

queres o numero dele?

1:12 da manhã  
Blogger a mota do pai said...

Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

1:21 da manhã  
Blogger Felisbela Fonseca said...

Tão cruelmente verdade!...(raios!)

8:56 da manhã  

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